sexta-feira, 23 de março de 2012

E chegamos a um beco sem saída

http://www.jb.com.br/transito/noticias/2012/03/19/e-chegamos-a-um-beco-sem-saida/

A Rua das Violas

O ano de 1904 foi marcado por intervenções de grande vulto na estrutura urbana da cidade, de acordo com a iniciativa da prefeitura sob o comando do engenheiro Pereira Passos. Uma das obras de maior importância foi o prolongamento da Rua Larga de São Joaquim até o mar, projeto imaginado há várias décadas pelo Barão de Taunay, mas só então realizado. Uma das perdas lamentáveis foi a Igreja de São Joaquim, localizada ao lado do Colégio Pedro II e que marcava a transição da Rua Larga para a Estreita de São Joaquim, as duas formando a atual Marechal Floriano.

Além da igreja, também foram demolidos imóveis do lado par, levando consigo algumas lembranças associadas a uma rua próxima, Teófilo Otoni, cujas origens nos remetem a um passado distante. Por iniciativa de Domingos Coelho, proprietário de terras junto ao mar, esta rua foi se dirigindo para o interior desde o litoral, com ponto de partida no posteriormente conhecido Cais dos Mineiros, desde meados do século XVII. Seu desenvolvimento, assim como da maioria dos logradouros de então, dependia do lento processo de drenagem e aterro, pois quase toda área da cidade era composta por pântanos e alagadiços. As condições desfavoráveis fizeram até mesmo a Santa Casa rejeitar os prédios legados a esta por Domingos Coelho, quando de seu falecimento.

Rua das Violas
Antiga Rua das Violas, no início do século
passado


Em 1710 a via finalmente alcançava a rua dos Ourives (Miguel Couto), recebendo também outro nome, de Rua Serafina, viúva de Domingos Coelho. Outro nome, cuja origem é desconhecida, foi o de Rua dos Três Cegos. Após a construção da Igreja de Santa Rita, em 1721, o trecho atrás do templo ficou conhecido como Detrás de Santa Rita, e também da Ilha Sêca, em referência a um trecho entre a rua da Conceição e Vala (Uruguaiana) que encontrava-se livre das águas. Mas só final do século XVIII o antigo caminho receberia o nome pelo qual ficaria conhecida, após lá se estabelecerem fabricantes de violas, que, embora não sendo muitos, tinham presença marcante, fazendo com que o local ficasse logo conhecido segundo seu negócio. Nascia a Rua das Violas.

O nome permaneceria até 1869, quando passou a ser chamada de Teófilo Otoni em mais uma mudança por razões políticas, homenageando um parlamentar que nada tinha a ver com a história do local. Nesta época, a maioria dos violeiros já havia se transferido para a rua Estreita de São Joaquim, cujas grandes mudanças de 1904 apagariam a lembrança deste capítulo peculiar da história do Rio de Janeiro.


Obra no Maracanã é campeã em irregularidades

http://copadomundo.uol.com.br/noticias/redacao/2012/03/23/obra-no-maracana-e-campea-em-irregularidades-sobrepreco-ja-chegou-a-r-163-mi-diz-tcu.htm

quinta-feira, 8 de março de 2012

Ladrões de bicicleta



Depois da Bicicletada Nacional de ontem, em quase 40 cidades brasileiras, fica um pouco a sensação de que os protestos são bacanas e importantes, mas também de que nada muda após eles. Portanto, quando se trata de convivência no trânsito é necessário mais do que manifestações (e que belo artigo do Roberto Da Matta publicado no GLOBO e reproduzido no post abaixo aqui no blog pelo Edu Almeida).

Reflexão. Qual o papel de cada um de nós? O pedestre deste momento é no dia seguinte o motrista, e na outra hora o ciclista. Temos consciência, seja qual for o veículo em que estejamos ou a calçada em que pisamos, de que a civilidade nas ruas começa não pelo outro, mas por cada um de nós?
Digo isso porque sou ciclista cinco a seis dias da semana, em média. Mas também sou motorista às vezes. E pedestre em outras tantas. E muitas vezes a gente reclama do motorista de ônibus (não sem razão) e do taxista (idem) e esquece de olhar para as nossas próprias atitudes.
No mais, penso que EDUCAÇÃO NO TRÂNSITO deveria ser assunto de escola. Sim, matéria obrigatória para as crianças desde pequenas serem orientadas a se comportar quando forem adultas e tiverem um volante ou um guidão nas mãos. 
O site G1 fez uma fotogaleria da bicicletada do dia 6. Para conferir, clique aqui.

Enviado por Blog de Bike - 
7.3.2012
 | 
12h29m

"Ladrões de bicicletas", por Roberto DaMatta

O Roberto DaMatta escreveu sobre a ciclista atropelada em São Paulo. O artigo foi publico no jornal O GLOBO de hoje. Vale a leitura.

"Lamento do fundo do meu coração a morte da ciclista Juliana Dias, vítima da mal politizada e ainda não discutida barbárie do trânsito brasileiro; ao mesmo tempo em que faço uma homenagem ao grande cineasta e ator Vittorio De Sica usando o título do seu célebre filme, realizado em 1948, que retrata uma Itália pós-guerra, vivendo um duro cotidiano de reconstrução de sua sociedade, de sua vida política e do seu sistema econômico, para escrever essas notas. 

Para quem não sabe, lembra ou viu, o filme gira em torno de um desempregado que consegue trabalho como colador de cartazes, com a condição — devido à mobilidade necessária ao serviço — de possuir uma bicicleta! Parece familiar, não é verdade? Para tanto, sua mulher empenha a roupa de cama da casa para obter a bicicleta cujas frágeis rodas e a força do seu dono e piloto são as asas da esperança do herói do filme para a competição por um emprego na rua. 

A história é contada no que se convencionou chamar de “neorrealismo” porque não era realizado num estúdio, não tinha o lirismo falso e fácil de Hollywood e nem lançava mão de atores famosos. Usando uma cinematografia modesta, quase humilde, que inspirou o “cinema novo” de Glauber Rocha, Carlos Diegues, Nelson Pereira do Santos e Joaquim Pedro de Andrade, entre outros, De Sica conta como uma simples bicicleta — esse objeto de esporte e lazer — muda de significado e passa ser um instrumento crítico de sobrevivência, de esperança e de recuperação da honra pessoal. Essa honra cuja marca, para quem é obrigado a trabalhar duro — como, aliás, é o meu caso — tem como pano de fundo a fragilidade e como centro o temor do desequilíbrio. Exatamente como ocorre quando andamos de bicicleta sem usar as duas mãos e podemos cair ou ser atropelados, pois toda bicicleta é um fator de risco. Seja pelo requerido equilíbrio, seja pela presença dos veículos motorizados, seja pela desesperada busca do ladrão, como ocorre no filme. Eis uma belíssima metáfora da vida na qual todos somos meros ladrões ou perdedores de bicicletas e nelas passamos desequilibradamente a nossa existência. 

Neste Brasil contemporâneo somos todos — como motoristas — especialistas em roubar a vida de pedestres e ciclistas. 

De fato, no dia 2 de março, perdeu a vida em São Paulo a bióloga, pesquisadora e cicloativista Juliana Dias, de 33 anos. Ao saber de sua morte em plena rua, abraçada pela crua e nua impessoalidade que marca as ruas de todas as grandes cidades, mas transforma em barbárie as deste nosso gentil Brasil, voltei a me perguntar se não era um conto do vigário a publicidade realizada em torno do transporte de bicicleta num contexto urbano onde o trânsito é dominado por uma forma de comportamento brutal e selvagemente agressivo. 

Como andar de bicicleta em cidades nas quais motoristas têm como esporte atropelar — pela ordem — pedestres, ciclistas e motociclistas — esses últimos com plena legitimidade, os dois primeiros porque a rua não lhes pertence. Todos, porém, porque são figuras menores numa visão desigual do espaço público. Um espaço que é pessoalmente demarcado de acordo com o tipo de veiculo, a agenda do dono do carro, bem como as suas circunstâncias de vida, de tal modo que ninguém deixa de ser — exatamente como no filme de De Sica — um vil ladrão de bicicletas e das vidas que as fazem funcionar. Pois, se os automóveis são movidos a cavalo e dirigidos por déspotas; as bicicletas, até prova em contrário, são tocadas por idealistas e ingênuos: esses inocentes que acreditam no respeito pelas normas e pelos outros. 

Pergunto se não seria uma urgência urgentíssima fazer uma campanha maciça, dura e realista mostrando claramente a nossa resistência à cordialidade que sem dúvida é nossa, mas que deve ultrapassar as fronteiras da casa e do coração, para ser aplicada ao mundo da rua e a todos os que conosco compartilham do espaço urbano. Tal extensão do respeito pelo outro no mundo público chama-se igualdade! Esse valor a ser implementado pela polícia e pela lei, mas ao lado de uma conscientização de nossas alergias às situações igualitárias e o nosso pendor às diferenciações que excluem os “homens bons” ou a “gente boa” das regras, sendo a marca de quem detém alguma forma de fama, celebridade, “você sabe com quem está falando?” e, bem acima de tudo, poder político! 

Sem uma renúncia ao despotismo hierárquico que permeia de cabo a rabo o cotidiano brasileiro e do qual o governo continua a ser o melhor exemplo, andar de bicicleta num trânsito desregulado pela confusão cultural (veja, caro leitor, o meu livro “Fé em Deus e pé na tábua”) entre igualdade e desigualdade (o sinal e o bom-senso valem para todos, menos para nós — motoristas de ônibus, altos funcionários do estado ou donos de “carrões”), estaremos promovendo mortes brutais, jamais o velho, limpo e mais do que desejável andar de bicicleta! 

Reitero à família da Juliana, ciclista símbolo da fé na igualdade, o meu pesar e a minha solidariedade.